Natal iluminado [dez/2009]

Não há Natal mais iluminado do que em Salt Lake City

Não há quem não diga um longo “Wow……” ao se deslumbrar com as fantásticas luzes de natal da Praça do Templo [Temple Square], em Salt Lake City, Utah, EUA. Milhares de luzes acendem-se em cada ramo das inúmeras árvores e encantam os mais de 900 mil visitantes que desfrutam do espetáculo nortuno todos os anos. As luzes ficam acesas de 27 de novembro (ou o dia seguinte ao feriado de Thanksgiving) até o primeiro dia de janeiro.

O mais interessante, no entanto, é que o processo de prender as luzes na copa das árvores começa em agosto e, por quatro meses, funcionários e voluntários trabalham driblando folhas, insetos e até ninhos para que tudo esteja perfeito para visitantes locais e turistas em dezembro. É impossível contar quantas luzes enfeitam a Praça do Templo, um dos principais pontos turísticos do oeste americano, mas em uma única árvore de tamanho considerável podem ser encontradas 75.000 lampadinhas.

Impressionante? É uma experiência única, fantástica e deslumbrante estar lá. Imagine morar e trabalhar em um lugar assim? Eu divido esta honra com vocês através deste fantástico site que torna a experiência espacial e 3D: (com a vantagem de não precisar de gorros, casacos e cachecóis. Aproveitem!)

www.utah3d.net/GalleryTempleSquare.html

Atualização: dez/2010 – Confira o processo de iluminação da Praça do Templo: http://lds.org/church/news/lighting-up-temple-square?lang=eng

[Por Daniela Urquidi, dezembro/2009]

Vídeo

Feliz Natal [dez/2009]

Natal é uma época extremamente sentimental, talvez por isso nunca foi minha época favorita. Mas depois de passar um Natal com direito a neve e tudo na missão em Centennial, COLORADO, eu aprendi o verdadeiro significado de Natal: ser cristão. E isso não se limita a um dia, uma semana ou um mês do ano. Entendi que simplesmente esta é uma data pra celebrarmos e comemorarmos que somos cristãos lembrando da razão de tudo isso: Jesus Cristo. Se não formos cristãos, caridosos e bondosos todos os dias de nossa vida, e se desperdiçarmos oportunidades de fazer o bem pouco teremos a comemorar no dia 25 de dezembro, a não ser remorso e vazio dentro de nós. Celebrar o Natal é uma decisão diária. Celebrar a vitória do bem contra o mau é uma decisão que tomamos minuto a minuto. Ser como Cristo é o presente que nosso Pai Celestial espera todos os anos. E o melhor de tudo: você é que fica com as bençãos no final. Desejo a todos uma celebração fantástica de tudo o que vocês foram e fizeram neste ano. Que o Natal seja um dia de reflexão e de amor junto daqueles que vocês amam, mesmo que em pensamento.

Feliz Natal para todos nós!

Pra vocês uma música que aprendi a amar na missão e é o meu sincero desejo a todos

 

Have yourself a merry little Christmas,
Let your heart be light
From now on,
our troubles will be out of sight
Have yourself a merry little Christmas,
Make the Yule-tide gay,
From now on,
our troubles will be miles away.

Here were are as in olden days,
happy golden days of yore.
Faithful friends who are dear to us
gather near to us once more.

Through the years we all will be together
If the Fates allow
Hang a shining star upon the highest bough.
And have yourself a merry little Christmas now.

Tradução:

Tenha um Feliz Natal
Deixe seu coração ser iluminado
De agora em diante seus problemas ficarão fora do caminho

Tenha um Feliz Natal
Celebre a época com alegria
De agora em diante seus problemas ficarão milhas distantes

Aqui estamos como nos velhos tempos
Felizes passados dias dourados,
Amigos leais que são muito queridos
Eles se reúnem conosco mais uma vez, 

Através dos anos nós estaremos juntos
Se o destino permitir
Segure uma estrela brilhante no mais alto laço,
E tenha um Feliz Natal agora

[por Daniela Urquidi, dezembro/2009]

Vídeo

Encontrar o Salvador [dez/2009]

Natal sempre fica melhor com a família por perto. E pra não perder a oportunidade dos primos reunidos escrevi um auto de natal. A idéia veio de uma vez a minha mente em um domingo de manhã. Assim surgiu: Encontrar o Salvador.

Os protagonistas da história são três primos que tem a chance de virar pastores na noite de Natal e voltar no tempo, visitando o menino Jesus. A pequena Raquel realiza seu desejo segurando nos braços o Salvador do mundo. Mas será que foi só um sonho que os três tiveram juntos na mesma noite? Regado a muita música e um coral único de pais, tios e avós que foram pegos de improviso, a peça realmente trouxe o espírito de Natal. “Cristo nasceu, nós temos que encontrá-lo.”

Logo abaixo vocês tem uma amostra da véspera de Natal 2009 da Família Urquidi. Os pastores de improviso (vestindo lençóis e fronhas) encontram-se com Maria, José e o recém-nascido Jesus Cristo. A música cantada a capella por mim é um hino lindíssimo que em inglês chama-se What Child is This? e, nesta tradução para o português, Quem é o menino no colo de Maria

Christmas is always better when family is around. And taking advantage of having all cousins together I wrote a Christmas Pageant. The idea of the whole thing came to my mind at once during Sunday morning. And it came out: Finding the Savior.

With all due roles, the main-characters are three cousins that get a chance to become shepherds and go back to the original Christmas’ Eve, visiting the baby Jesus. Little Raquel has her wish come true as she hold the Savior in her arms. But, would it have been only a dream that all three had at the same night? With plenty of music and an unique choir made out of parents, uncles, aunts and grandpas that winged it, the play really brought the Christmas spirit into the house. “Christ is born, let’s find him.”

Above there is a little sample of what was the Urquidi’s 2009 Christmas’ Eve. In this part the improvised shepherds (wering bed clothing) visit with Mary, Joseph and the new-born Jesus Christ. The song that is being sung a capella by me is a beautiful hymn called “What Child is This?”, in a Portuguese version.

[por Daniela Urquidi, dezembro/2009]

O Labirinto do Fauno – Estudios Picasso, 2006 [Set/201]

El Laberinto del Fauno (2006) é um conto de fadas revisitado, criado inteiramente na mente do diretor mexicano Guillermo del Toro. Seu oitavo filme lhe rendeu 3 oscars em 2007: melhor Maquiagem, Arte e Fotografia. Misturando elementos míticos com a Guerra Civil Espanhola, ele conta a história da imaginativa Ofelia (Ivana Baquero). Aos treze anos (1944), ela se muda com a mãe grávida (Ariadna Gil) para a casa do padrasto, um capitão franquista (Sergi López) responsável por eliminar a resistência republicana do local .  O clima não é nada propenso à imaginação. Há tensão, mortes e violência em toda parte. Ofelia consegue sobrepujar essas dificuldades e viver (criando) seu próprio mundo.

“A inocência tem um poder que o mal não imagina”

labirinto_fauno-e-ofeliaAtravés de um fauno, Ofelia descobre que é uma princesa que há muito se perdeu ao sair do reino subterrâneo de seu pai. Conta a lenda que esta princesa retornará ao seu lugar, mas antes a menina deve passar por três testes para provar se é e realmente merece ser a tão aguardada princesa. Ninguém mais compartilha ou entende o mundo encantado de Ofelia além de suas fadinhas e do monstruoso fauno. labirinto_sinal-luaMisturando fantasia e realidade, a trama se enreda através de momentos emocionantes, tristes, ternos, de aventuras e certo clima de revolta contra a crueldade daquilo que precisa ser o mundo real. Todo espectador de O Labirinto do Fauno chega a uma encruzilhada: imaginação de criança ou realidade? A pergunta não é se existem fadas ou faunos em nosso mundo, labiritnto-poster-monstro-2mas se Ofélia realmente viu o que viu e fez o que fez ou simplesmente imaginou tudo em sua mente. Quando nos entretemos com um conto maravilhoso, aceitamos suas regras e acreditamos na verossimilhança interna. Mas Guilhermo del Toro gosta de brincar com nossos padrões pré-estabelecidos e deixar-nos confusos quanto às verdadeiras regras do jogo. Cada um terá que refletir e decidir se Ofélia alcança o que busca ou desperdiça suas oportunidades.

 
Trata-se de um filme intrigante, sem dúvida nenhuma feito para adultos dispostos a questionar o que vale a pena na vida e quais as batalhas que merecem ser lutadas. O Labirinto do Fauno nos relembra que a fantasia pode libertar-nos da secura da vida, mesmo através de uma fantasia sombria. Mais do que falar de monstros (fantásticos ou humanos), Guilherme del Toro fala de opções. Sempre há pelo menos dois lados. Escolher nunca termina enquanto se está no labirinto.

[Sessão das 4, por Daniela Urquidi, setembro de 2010]

Crônicas de Nárnia: Príncipe Cáspian – Walt Disney Pictures, 2008 [Set/2010]

O segundo filme da série Crônicas de Nárnia perde um pouco da novidade. Não perde, no entanto, a grandeza da história de C.S. Lewis. Competindo com as incríveis histórias de J.R.R. Tolkien (O Senhor dos Anéis) no mercado cinematográfico, Nárnia volta-se mais a um público infanto-juvenil. É a história de quatro órfãos, os irmãos Pevensie que, nesta sequência, estão indo para a escola em Londres. Meros estudantes no mundo real, são reis e rainhas no reino de Nárnia. Já venceram a perversa Feiticeira Branca ao lado do leão Aslam (em O leão, a Feiticeira e o Guarda Roupa) e não imaginam que encontrarão Nárnia completamente diferente ao serem magicamente transportados para lá mais uma vez. Mais de 1300 anos narnianos se passaram em sua ausência e um novo inimigo cruel reina: humanos. Os animais falantes, a natureza vivamente atuante e os personagens míticos agora são perseguidos e exterminados. O maligno e usurpador rei Miraz terá que ser combatido pelo príncipe Caspian (Ben Barnes), herdeiro do trono, pelos reis Pedro (William Moseley) e Edmundo (Skandar Keynes) e rainhas Susana (Anna Popplewell) e Lúcia (Georgie Henley) com todo o apoio das criaturas narnianas.

Toda a obra de C.S. Lewis tem um forte apelo e fundamento de temas cristãos. O messias e a evidente luta entre o bem e o mal (e quem vence) são tão claros em sua obra quanto nos Evangelhos da Bíblia. No entanto, a obviedade não retira a tensão, a surpresa e a dúvida que prevalecem no filme. A esperança da fé é posta em xeque para depois ser reafirmada. O diretor de animações Andrew Adamson transforma a matéria em mais do que lição de moral. Não que a obra em si seja apenas isso, mas o entretenimento, a beleza das cenas e a ótima atuação das crianças deixam um resultado impecável.

Algo que agrada na saga Crônicas de Nárnia é a independência entre os filmes. Cada história é uma célula em si mesma seguindo uma mesma origem, geografia e pensamento. Diferente de Senhor dos Anéis, você pode sair do cinema (ou desligar a Tv) com sentimento de completude, sem estar suspenso até o próximo lançamento. São ao todo sete livros que estão sendo filmados em ordem de publicação original, e não em ordem cronológica. Apesar de estar entre as 10 maiores bilheterias de 2008, o segundo longa não foi tão financeiramente vantajoso quanto o primeiro, o que fez com que a Walt Disney Pictures anunciasse que não participaria do terceiro filme. A  Twentieth Century Fox tomou a dianteira e já confirmou Crônicas de Nárnia: A Viagem do Peregrino da Alvorada para dezembro 2010. Para sorte daqueles que gostam do que têm visto até agora, o lançamento promete mais dos mesmos atores, agora um pouco mais velhos.

 

[Sessão das 4, por Daniela Urquidi, setembro de 2010]

A família do futuro – Disney, 2007 [Abr/2010]

A família do Futuro em DVD    Há exatos 3 anos a Walt Disney Pictures lançou Meet the Robinsons (“A Família do Futuro”, 2007). O filme não é mais nenhuma novidade, mas, na minha opinião, vale a pena pegar na locadora para assistir com a família ou com o namorado(a) no fim de semana. A animação é baseada no livro A day with Wilbur Robinson do escritor, ilustrador e cineasta americano William Joyce e foi dirigida por Stephen J. Anderson.

À primeira vista, como quase todos os filmes infantis, o enredo é monótono: menino órfão quer encontrar a mãe para se sentir completo. De fato, o filme ganha força após as primeiras apresentações de personagens e situações. Lewis foi deixado em um orfanato pela mãe e, aos 11 anos de idade, corre o risco de nunca ser adotado. Ele não é um garoto comum, pois as idéias dele vão além da previsibilidade de seu mundo. Lewis é um cientista nato que está sempre tentando inventar soluções e constrói engenhocas interessantes. O filme começa mesmo quando ele decide que só pode ser feliz encontrando a mãe biológica e passa a trabalhar em um scaner de memória que o ajudará a identificá-la em através de lembranças. Sua invenção, no entanto, é roubada pelo bandido do chapéu coco, mas as consequências disso serão maiores do que eles poderiam supor. Wilbur Robinson, um garoto do futuro, ajudará Lewis na recuperação da máquina e na busca de seu próprio destino.

Não só as invenções de Lewis são brilhantes e surpreendentes, os desenlaces do enredo são bem originais.  É mais do que uma lição para crianças sobre acreditar em seus sonhos e lutar para alcançá-los. É um lembrete aos adultos de que eles podem, sim, fazer a diferença para os outros, sejam os mais próximos ou não.  Como outros protagonistas, Lewis vê o mundo de uma maneira diferente, até o momento em que ele deve decidir investir ou desistir de seus sonhos. Ser diferente ou ajustar-se? É então que entra a família Robson para provar a ele e a você, espectador, que o mais importante é o indivíduo, não os moldes. Você é especial pelo que é, da forma que é, mesmo com imperfeições e maluquices. Eles são a família unida que a Disney desejaria que todos tivessem. Sem passar pelo melodrama, as cenas dos Robinsons são engraçadas e inusitadas. Eles não ficam atrás dos vilões divertidos que dão à história sua razão de existir. O aspirante a vilão e seu chapeu coco, Dóris, põem em pauta a fragilidade da busca rancorosa por glória.

Moral da história: relacionamentos são importantes, especialmente familiares. E nunca desista de seus ideais mesmo que falhe: “siga em frente” (keep moving forward). Apesar da síntese banal, sei que você se surpreenderá com a inteligência do roteiro que atualiza criativamente antigas questões. Para dizer a verdade, muito do que está no filme vai além da compreensão infantil. Especialmente madura é a música que Rob Thomas compôs para o desenho antes mesmo de receber o roteiro (o que surpreende pela pertinência em relação ao enredo). Little Wonders fala sobre deixar o passado, perdoar, ser perdoado e viver o presente. Não é preciso tirar as crianças da sala, mas faça o favor de assitir a versão legendada.

Pronto para Todayland?

[Sessão das 4, por Daniela Urquidi, abril de 2010]

Como treinar seu dragão – DreamWorks, 2010 [Abr/2010]

Filmes para criança são um mistério para mim. Falam das coisas da vida de uma maneira simples, fazem rir do fundo da alma, divertem de uma maneira despretensiosa. Sorrisos brotam mesmo que você já saiba desde o início como o filme vai acabar. Assim é Como treinar seu dragão, animação da DreamWorks (How to train your dragon – 2010), mesma produtora de Shrek, Madagascar e Kung Fu Panda. A animação 3D teve estreia no Brasil em 26 de março de 2010. A ideia geral do filme foi baseada em livros da autora britânica Cressida Cowell, com roteiro escrito e dirigido por Chris Sanders e  Dean DeBlois.

De início encaramos Soluço, o típico adolescente que não se encaixa. Mas desta vez não estamos em uma high school americana, e sim em uma comunidade viking.  Soluço é franzino e desajeitado, nada do que é esperado do filho do líder viking. No entanto, ele não é o maior problema dos habitantes da ilha de Berk, eles têm que enfrentar dragões que queimam as casas, roubam os rebanhos e atrapalham suas vidas. Matar dragões é parte de “ser viking”, são inimigos declarados e convictos. Para se inserir no grupo e atender às expectativas paternas,  Soluço precisa matar seu primeiro dragão, mas tem seus valores postos em xeque quando a ocasião se apresenta.

O filme traz à tona diversos conceitos contemporâneos bem apresentados. Por exemplo, o garoto em si é a questão da força versus inteligência e qual ganha no final. Soluço não é bobo, pelo contrário, mas definitivamente não é como os outros. Ele é a nova geração que vence preconceitos, quebra as regras e descobre que há mais além de si. Há o velho clichê da guerra de gerações, mas a animação contém boas sacadas e piadas inteligentes, além de momentos tocantes. Velhos assuntos, novo formato, já que a novidade 3D ainda encanta muito. O filme tem algo de antropológico ao mostrar que é possível ver o mundo do ponto de vista do outro e avaliar por outra perspectiva sua própria sociedade, educação e dogmas. Ao longo do filme, dragões selvagens e vikings teimosos irão muito além de seus mundos porque há questionamento.

A história tem seu mérito por colocar sob um outro holofote o velho bem contra o mal.  Ao invés do relativismo, prefere abordar o problema da opressão e dos preconceitos e como sobrepujá-los. Quem nunca se sentiu desajeitado e sem amigos? Quem nunca tentou estar à altura das expectativas? Quem nunca  guardou um segredo que os outros não entenderiam? Quem nunca quis mudar seu mundo? Mesmo que você já tenha adivinhado o final, vença seus preconceitos e não perca essa.

[Sessão das 4, por Daniela Urquidi, abril de 2010]

Mulan – Walt Disney, 1998 [Mai/2010]

Mulan é um clássico Disney tanto quanto Cinderela ou A Bela e a Fera. A animação levou 5 anos para ficar pronta e foi exibida pela primeira vez em 1998. Dirigida por Tony Brancroft e Barry Cook, foi indicada ao Oscar, ao Globo de Ouro e ao Grammy por sua trilha sonora. Mas não são os prêmios que me prendem por uma hora e meia à emocionante história de Mulan. Confesso que sempre me identifiquei com a personagem e tenho verdadeira adoração por este desenho animado. E que garota não teria? Mulan é forte, decidida e inteligente.

Já assisti ao filme inúmeras vezes, mas há sempre mágica ao envolver-se novamente com os personagens e ao deslumbrar-se com a técnica, promovida por 700 profissionais, entre técnicos, animadores e artistas. Mulan é uma obra-prima cinematográfica. Trata-se da adaptação de um clássico da literatura chinesa “Poema de Fa Mulan”, que conta a lenda de uma menina travestida em guerreiro para poder lutar e proteger seu país. A história é a mesma, mas carregada de humor, de drama, um leve toque de romance e o imperdível musical-disney. A trama tem um ritmo constante e dominador, alternando momentos dramáticos ou emocionais com piadas e momentos cômicos.

A paisagem aquarelada é um descanso para os olhos. Logo de início vemos a geografia chinesa aos poucos desenhada em papel de arroz. A sutileza é uma das grandes marcas do filme.  A história também discute a delicadeza das tradições.  Mulan é esperta, atrevida, decidida, mas inadequada. Ela é uma jovem dividida entre seu dever e seu coração. Ela não consegue encaixar-se na sociedade que reprime e limita as mulheres – que não podiam nem falar na presença de um homem – , mesmo que queira honrar seu pai e sua família. Lealdade e honra são elementos importantes para entender as atitudes dos personagens e sua tradição.

As apresentações terminam e a ação começa de verdade quando a convocação do exército chega. Um homem de cada família deve demonstrar sua lealdade ao imperador servindo no exército contra os hunos, que transpuseram a grande muralha da China. Isso significa que o velho e fraco pai de Mulan, Fa Zhou, irá praticamente caminhar para a morte, já que não tem um filho que possa tomar seu lugar e honrar seu nome. Escondida e disfarçada, Mulan assume o lugar do pai e vai ao acampamento dos recrutas para seu treinamento. Mas não vai ser fácil aprender a ser um homem e ser aceita por seus pares. Isso rende altas risadas e a fabulosa música “Não vou desistir de nenhum ”, em que o comandante Li Shang – o galã – treina  os desastrados soldados. Prefiro a versão em português da música que expressa a esperança e confiança no potencial dos novatos (aliás, esse é um filme que vale a pena ser visto dublado). Apesar de não ter a força de um homem, Mulan usa o cérebro e a inteligência para ganhar vantagem.

Mas ela não faz tudo isso sozinha, ela tem como protetor Mushu, um pequeno dragão atrapalhado – e um pouco egoísta – que está  tentando salvar a própria pele dos ancestrais transformando-a em heroína. O papel é feito por Eddy Murphy (e seu respectivo dublador em português), o que por si só já garante uma boa comédia com ótimas piadas. Há também o companheiro Cri-Kee, um grilo da sorte que adiciona um toque de graciosidade e delicadeza às aventuras. Há ainda os três soldados que se tornarão amigos e companheiros de Mulan. Eles representam o pensamento machista do exército e da sociedade e também a mudança de atitude ao ver do que Mulan é capaz.

É ela que, com sua estratégia e inteligência, vence o imenso exército huno e salva o imperador sem a necessidade de mais vidas desperdiçadas. Na hora da ação, ela corre em direção ao perigo e faz aquilo que seu coração manda. Inevitavelmente, ela é desmascarada, mas é aí que está o grand-finale. O perigo ainda ronda e é como mulher que ela então se realiza. Desta vez tirando vantagem do preconceito social, ela novamente usa o cérebro e sai vitoriosa. Mas agora ela não é o fake Ping, é ela mesma. E é como tal que ela é reconhecida em uma das cenas mais lindas que já vi. Após a bronca que recebe diretamente do imperador, uma multidão – ao estilo chinês –, incluindo o próprio imperador, curva-se em reverência e honra à Mulan. Não poderia faltar então o reconhecimento realmente anseado, o de seu pai. As cenas finais arrematam uma animação feita de bom gosto. E não deixam de contemplar nosso desejo de romance, mesmo que discretamente como a tradição chinesa pede.

Mesmo que você já tenha assistido, vale a pena prestar atenção nas sutilezas e belezas que só muita dedicação confere à obra. Para indicar apenas duas cenas bem diferentes em conteúdo e intenção, vale prestar atenção na cena do banho na lagoa em que Mulan vai se limpar – altamente cômica –, e o momento poético de reverência perante à devastação da guerra, quando ela deposita uma bonequinha junto ao capacete do general, homenageando não só os militares, mas também os inocentes.

Poderia continuar escrevendo sobre Mulan por dias, mas nada do que seja dito tira a magia de assistir a este clássico. Esta é uma animação para qualquer dia e qualquer ânimo, para passar o tempo e para refletir sobre nossos próprios preconceitos. Sempre quis ser como Mulan para romper as barreiras, superar as expectativas, descobrir a mim mesma apesar dos outros e honrar minha família por quem sou. Superando em muito a tonta Branca-de-Neve que é sempre a vítima,  Mulan é um presente da Disney a todas as garotas-mulheres do século 21 e seus admiradores.

P.S. Há alguns anos foi feita uma continuação do filme (Mulan II) que não chega aos pés da técnica e esforço do primeiro, além de distorcer um pouco os personagens. Esse eu não recomendo.

[Blog Sessão das 4, por Daniela Urquidi, maio de 2010]

Era uma vez…

Quem chega a minha vida não vai saindo assim
Traz, deixa e leva um pouco de mim.
Do seu coração faço questão de uma parte
e ao meu é colocada, como obra de arte.
Quem de mim se aproximar
também pode algo daqui levar
e sempre algo nos unirá:
amor, saudade, lembrança ficará.
Não são apenas nomes e histórias jogadas ao vento,
São almas que se encontram e vivem aqui dentro.
Se você me disser que nunca mais nos veremos,
as lembranças e os momentos nunca me permitirão esquecer.
Se um dia eu vier de algo a me arrepender
Sei que poderei dizer que nunca deixei de aprender,
e foram todos vocês que me ensinaram
a dividir alegrias e tristezas com aqueles que olharam
e viram que valia a pena conhecer,
viver, crescer, merecer.
Merecer essa amizade tão linda,
que aqui começou, mas jamais finda.
Posso talvez ser a lembrança futura e míngua do colegial,
Mas em mim foi deixado algo magistral.
E poderei dizer a quem quiser me ouvir,
Contando e lembrando a sorrir:
Era uma vez…
Vocês!

 

[Despedida do colegial, escrita para meus amigos que comigo se formavam,
por Daniela Urquidi, novembro de 2004]

Montanha russa [Jun/2011]

 “O jornalista é um homem que errou de profissão” – atribuída a Otto Von Bismarck

Quando terminei o colegial sabia apenas uma coisa: que deveria continuar estudando. Fora isso, a imensa disponibilidade de profissões me deixava atordoada. Cheguei a ser bióloga marinha, engenheira florestal, professora e por fim escritora. Eu sabia apenas que os números não me acompanhariam. Tentavam não influenciar minha decisão, o que me angustiava muito mais. Como decidir aos 17 anos o resto da minha vida? Mesmo assim o tempo urgia e a decisão se aproximava.

Mãe, vou prestar pra Jornalismo. Silêncio. Acho que vou poder escrever bastante se for jornalista. Silêncio. Não quero ser professora, senão faria Letras. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Tempos depois descobri que minha mãe sempre desprezara jornalistas e tinha uma antipatia natural por eles. Mas ela me apoiava. Comecei a faculdade, a trabalhar em um estágio e logo descobri o significado de exploração. Com mais alguns meses fui buscar no dicionário a definição de decepção para ter certeza. Eram sermões ilógicos, teorias absurdas, abstrações impossíveis. Dei-me conta de que não seria escritora. Talvez uma máquina mecânica de leads, pirâmides invertidas, um gatekeeper. A insatisfação destruía as perspectivas e cegava a esperança.

Mas a luz estava lá. Bem no fundo, mas ao meu alcance. Comecei a estudar Letras e Jornalismo ao mesmo tempo. As coisas começaram a fazer mais sentido, a linguagem que eu tanto apreciava me era restituída. Passei a admirar também o trabalho de apuração e redescobri o prazer da escrita. Descobri que havia passado por uma crise de abstinência: faltava-me a literatura. O ritmo dos trabalhos, aulas e textos era frenético. Eu estava feliz porque não era jornalista.

Após um período sabático, havia decidido largar o jornalismo. O curso de Letras me bastava. Porém um amigo me chamou à atenção: eu estava me rendendo. Não. Há que se vencer os desgostos. Transformar a realidade. Faça as possibilidades trabalharem a seu favor. Sim. Decidi me formar. Alguns argumentaram que aquele pedaço de papel, o tal diploma, de nada mais valia para a profissão. No entanto fui firme à decisão e comecei a segunda metade do curso. O ano que se seguiu foi um maravilhoso namoro, repleto de descobertas, pleno de realizações, cheio de confiança no futuro. Afinal o jornalismo era o que eu fazia dele. Decidi procurar um estágio – e me submeter novamente aos caprichos do mercado.

Foi então que as dúvidas retornaram. As vagas não tinham o meu perfil, tinham o perfil da minha ambição. Não ganhei a chance de ser jornalista. Acabei desistindo das redações. E comecei a imaginar se as tartarugas marinhas não estariam precisando de mim. Apeguei-me novamente às possibilidades de ser professora. Minha mãe, um pouco mais aliviada, apoiou-me. Mas sinto que pelas ironias da vida o jornalismo ainda vai me perseguir e alcançar.

Em que ponto desta incômoda montanha russa estarei nos próximos capítulos é difícil prever. Talvez eu largue tudo e vá pesquisar os pandas. Talvez eu seja encontrada em uma sala de primário ensinando Machado de Assis. E tudo só depende de oportunidade, de vontade, de momento. De uma coisa sei com certeza: com 17 ou 107 estarei sempre estudando. Bismarck não estava errado ao supostamente dizer que o jornalista é alguém que errou de profissão. Talvez tenha errado. Mas enquanto houver dúvida posso singelamente declarar como ocupação minha profissão de fé: estudante.

(Obs. No presente capítulo encontro-me jornalista, editora, estudante e plenamente realizada. Divertindo-me nas curvas da montanha russa. Mas quem pode imaginar o que vem além da curva…)

 

[Despedida ao final da faculdade de jornalismo,
por Daniela Urquidi, junho de 2011]

Tolerância: dever ou direito? [Ago/2011]

O preconceito, frequentemente ligado ao medo, é um dos instintos mais primitivos do homem. Nosso intelecto irracional registra automaticamente o outro e o diferente como ameaça até que a consciência entre em cena e devolva ao animal humano a civilidade conquistada. Pode acontecer que a razão seja treinada para direcionar e manter certos preconceitos, seja pela tradição ou educação. O medo fustiga o preconceito, o preconceito promove a intolerância e a intolerância alimenta o medo.

Em julho deste ano um ataque terrorista sem precedentes motivado pela xenofobia deixou 92 mortos. Porém, o assassino não direcionou seus ataques aos que lhe provocaram ódio e hostilidade, mas àqueles que julgou serem os futuros responsáveis pela contínua entrada de estrangeiros na Noruega. Para os jovens assassinados a tiros, expressar preferência política em um país livre lhes custou a vida. A conduta do atirador trouxe à luz uma questão indigesta, mas galopante na Europa: o extremismo da direita repleto de preconceitos.

Em um estado de direito democrático as ideologias são toleradas e livres em suas expressões. Nas palavras de Kant, “a liberdade do arbítrio de um pode subsistir com a liberdade de todos os outros segundo uma lei universal”, que é a lei da razão. No entanto, diante da irracionalidade ideológica demonstrada no incidente norueguês nos perguntamos se há ideologias que são intoleráveis e devem ser reprimidas, tornando assim a tolerância relativa e ambígua.

A política adotada pelos governos democráticos é em tese a do respeito ao multiculturalismo, impondo a seus cidadãos o dever da tolerância. Raphael Douglas, ex-professor de Ética na Universidade Federal Rural de Pernambuco, descreve a situação como um “catecismo contemporâneo da boa vontade” artificial. Assim como a extrema-direita em países europeus, podemos notar que em diferentes graus e conjunturas pessoas começam a reclamar o “direito à intolerância”, o direito de sentirem-se hostilizadas, de defenderem seus preconceitos e de proteger-se contra o outro.

Enquanto parece que a evolução dos direitos humanos e da diplomacia atingiu uma sofisticação capaz de garantir a paz no mundo, outra corrente requer o reconhecimento de seu direito à hostilidade, ao medo, ao preconceito.  A tolerância ao intolerante expresso apresenta-se como um dos paradigmas humanos da civilização moderna. Espera-se apenas que enquanto as discussões avançam mais sangue não seja derramado por aqueles que não sabem suportar o diferente e o medo.

 

[por Daniela Urquidi, agosto de 2011]

Ser fugaz [Abr/2011]

“O nosso eu é edificado pela superposição de estados sucessivos” – Marcel Proust

A partir de percepções primárias observamos que o homem regular muda e se transforma ao longo de seu desenvolvimento. Passa de bebê passivo a jovem exuberante, de vivacidade constituída a sobriedade senil. Descobre o mundo, a comunicação, a linguagem, a si mesmo e aperfeiçoa sua capacidade crítica e habilidade intelectual. O homem é, sobretudo, diferente de si mesmo ao longo de sua vida. Seres e existires acumulados que constituem uma forma única de ser para um determinado momento. Diz a autora Clarice Lispector em A paixão segundo G.H.: “o ‘eu’ é apenas um dos espasmos instantâneos do mundo”. O eu não pertence exclusivamente ao sujeito em processo, mas ao mundo no qual se insere e aos muitos outros seres que se conjugam ao seu redor. O conceito de “dasein”, de Heidegger, implica o pressuposto de que “há modos de ser”, visto que o ser depende da ação, momento em que o “ser está sendo”.

Nos diversos movimentos de sua execução, o ser só pode ser articulado pelo sujeito e pela consciência através da linguagem. Mesmo que esta não venha articulada por meio de palavras, o código utilizado para integrar o mundo se estebalece como linguagem. Por meio dela, o indivíduo organiza-se sujeito e questiona seu eu mutante – ser anterior à consciência. “A linguagem é a morada do ser”, segundo Heidegger, porque nela ele se abriga para realizar-se e compreender-se. A língua é o que permite à consciência o questionamento e ajuizamento da questão ontológica. Encontrar a colocação adequada do “sentido do ser” está restrito àqueles que dominam o idioma e o pensamento lógico articulável. Assim, enunciação e expressão possibilitam que a consciência exerça seu papel de auto-(re)conhecimento ontológico. Processo este continuamente imperioso, visto que, segunda a premissa adotada, a existência só tem sentido em seu universo circundante, no “ser-aí’ instável.

Sendo o universo circundante elemento fundamental para o entendimento do ser, é primordial também a compreensão do relacionamento entre os sujeitos individuais, sistematizado pela linguagem. A língua não somente registra, mas permite e amplia possibilidades de mundo e, consequentemente, possibilidades de ser. Diante do processo linguístico que transcende o sujeito, cada indivíduo subordinado ao cosmo e ao todo também se estabelece como um todo distinto e singular. Na hierarquia indefinida de inúmeros microcosmos dos seres o caminho para a significação passa pela linguagem, pela consciência, pelo sujeito e, enfim, pela formulação do ser. “O idioma é a única porta para o infinito”, onde folga livremente o fugaz ser.

 

[por Daniela Urquidi, abril de 2011]

Monopólio da violência [Set/2011]

 

– Weber e as milícias armadas brasileiras –

 

Trotsky declarou em Brest-Litovsk que “qualquer Estado baseia-se na força”.  A partir desse pressuposto Max Weber, filósofo alemão do século XX, tece uma tese conhecida como “monopólio da violência”, na qual o Estado moderno pode ser definido pelo monopólio legítimo da força nos limites de um território estabelecido (A política como vocação, 1919). Se o poder de um Estado está no controle da violência, o que aconteceria se o Estado estivesse ausente e omisso dentro de seu próprio território? Então isso seria Brasil, precisamente uma favela carioca dominada por milicianos.

A população brasileira tem apaticamente assistido à dominação de comunidades por milícias. Criadas inicialmente com o propósito de expulsar traficantes e pacificar as favelas, os grupos de “auto-defesa comunitária”, como um dia foram reconhecidos pelo governo, tem em pouco tempo enveredado pelos rumos da criminalidade e apropriado-se do terror, da extorsão e do extermínio como forma de controle. Criam um Estado paralelo que, ainda de acordo com o conceito de Weber, está calcado no uso da violência, porém em nível local e extra-oficial. Onde falha o Estado constituído, um novo Estado amoral se aloja.

Sem surpresa constata-se que os detentores do novo poder imposto em recônditos isolados do alcance do Estado são justamente agentes deste. Policiais civis e militares, ex-policiais, bombeiros, soldados do exército, enfim, servidores responsáveis por manter o uso da força na mão do Estado usam seu conhecimento e treinamento para servir em última instância a seus próprios interesses. Ninguém melhor do que eles para aplicar a verdade de Weber: aquele que domina a força tem legitimidade sobre seus iguais.

Os milicianos atravessam muitas vezes a fronteira que separa o crime da lei. Os grupos armados também tem superado as fronteiras dos estados e se espalhado pelo Brasil. O traço comum a todos eles é o uso da violência e a sensação de pairar acima da lei, como aponta reportagem da revista Veja (29 de agosto de 2011). Apesar de oprimidas por outro tipo de organização que não o tráfico, as comunidades admitem a dominação das quadrilhas em troca da segurança que recebem ao conformarem-se às novas regras. Aqueles que discordam são sumariamente condenados e executados como exemplo, imposição e demonstração do poder conquistado.

Paulo Storani, ex-sub-comandante do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar do Rio de Janeiro, critica a prática e organização de milícias, mas relata que nunca viu “até agora troca de tiros entre milicianos e polícia, ou a polícia invadindo comunidade ocupada por milícia. Então, a ocupação de milícias diminui o confronto – e o que as pessoas querem é paz, mas elas acabam tendo que pagar um preço por isso”. Na teoria de Weber, o Estado é a fonte única do direito de recorrer à força. Para quem vive o dia a dia das 100 comunidades controladas pelos grupos armados dentre as 250 da cidade do Rio de Janeiro, tem poder quem é presente, quem é mais forte e, principalmente, quem está armado.

Apesar de não expressa na tese de Max Weber, conclui-se que dois Estados não podem monopolizar a violência no mesmo território sem entrarem em conflito, mesmo que um deles seja extra-oficial. A situação é insustentável em teoria e prática. A alternativa para a “auto-defesa” mostrou-se tão ineficiente e corrompida quanto o Estado que lhe deu origem.

 

[por Daniela Urquidi, setembro de 2011]

A Ágora de Lapouge [Set/2011]

O ensaio é o gênero do debate por excelência. Três produções do ensaísta Gilles Lapouge embasam uma análise que busca demonstrar como a habilidade de tecer sentidos aliada ao espaço para crítica ampliam o campo da discussão do mundo contemporâneo.

 Na grandiosa Ágora reuniam-se as cabeças pensantes de Atenas para decidirem os assuntos importantes da cidade. Cidadãos iluminados portavam o direito de expor sua opinião e discutir abertamente seu ponto de vista. Nascia na Grécia a democracia e consagrava-se a liberdade de expressão como um de seus pilares. É também baseado na liberdade de expressar opiniões e críticas que encontra-se o ensaio. Gênero literário escrito por excelência, poderia ser traduzido em uma intensa conversa entre amigos bem informados que tratam dos assuntos da atualidade. É no ensaio que o autor sente-se à vontade de argumentar seu ponto de vista sem a necessidade de convencer o júri ou sem a pretensão de esgotar as possibilidades do cientista. O ensaio é a Ágora que precisamos não somente para que nos ouçam, mas para escutar e entender.

A presente análise se propõem a estudar três ensaios do jornalista e escritor Gilles Lapouge, publicadas no jornal O Estado de São Paulo. São eles: Europa constrói muros para barrar imigrantes (de 09/01/2011), Exportação de desgraças (de 05/08/2011) e As botas da internet (de 16/01/2011). Lapouge usa o ensaio como sua Ágora, expõe suas críticas, faz suas próprias análises e coloca o tema em debate. O autor é capaz de reunir informações dispersas e dar sentido ao caos da atualidade. Ele é o historiador do presente, aquele que busca nexo em eventos simultâneos aparentemente dispersos, mas que formam o painel contemporâneo.

Os três ensaios de Lapouge são um espaço para debate por excelência. Especialmente em Europa constrói muros para barrar imigrantes, ele reúne dados sobre a construção de muros nas fronteiras de diversos países. Eventos que pareciam isolados e motivados por diferentes realidades argumentam a favor da tese de que, apesar da globalização, nunca tantas nações isolaram-se por meio de muros físicos. O autor argumenta com fatos, com números, com histórias. Ele cita nominalmente treze países que já ergueram um ou mais muros em suas fronteiras. Como em um debate informal, não se preocupa em citar fontes e assegurar a credibilidade de cada dado. Ele é a autoridade em sua própria Ágora. Com um estilo irônico, ele critica a realidade contraditória que emerge como eventos desconexos, mas que seu olhar identifica como totalidade. Com subjetividade indisfarçada ele afirma que “pedreiros tem um belo futuro pela frente”. No ensaio, sua credibilidade não é afetada por sua subjetividade: é uma análise pessoal e autoral que esperamos ao ler Gilles Lapouge.

Apesar de não encerrar a questão ao final de uma discussão ensaística, o autor apresenta propostas e hipóteses plausíveis dentro de sua argumentação. Ele toma as emaranhadas linhas dos noticiários diários e tece um painel compreensível do que se passa no mundo, na sociedade, na humanidade. Em Exportação de desgraças, Lapouge nos apresenta um cenário da crise européia para discutir as consequências da globalização. Haveriam chegado a este ponto os países europeus não estivessem tão vitalmente conectados e dependentes? Quem pensaria na globalização neste momento a não ser o ensaísta? Ele é livre para acusar, criticar e expor o próprio pensamento a sua maneira. Seu estilo é simples e direto, frases curtas, de fácil apreensão. Ele dramatiza a situação, abusa de figuras de linguagem e adjetivações e, com frases de efeito, ganha seu leitor. Ironizando diz que:

“Todo mundo já sabia disso, exceto Berlusconi e Zapatero. É verdade que estes dois infelizes trabalham demais. Sem dúvida não têm tempo para ler os jornais, informando há várias semanas sobre a bomba caindo sobre suas cabeças. No entanto, bastava examinar os números para saber que o vendaval já chegara por ali.”

Este é o espaço para discutir não apenas a globalização, a crise, enfim, os fatos inegáveis em si, mas também a inabilidade dos dirigentes políticos na visão oposicionista do autor. A ele é permitido ter partido, preferido e opinião.

No terceiro ensaio analisado,  As botas da internet, um Lapouge mais contido conta sobre a Primavera Árabe de seu ponto de vista otimista. Ele lança hipósteses, mais uma vez não se preocupa com as fontes, mas não traz arroubos críticos e nem mesmo laudatórios. Ele conta o que afirma haverem os veículos de mídia ignorado. Ele usa a força das declarações que partiram de dentro da revolta para expressar seu apoio a tais revoluções. “Uma palavra grandiloquente, ingênua e estranhamente eficaz ressoou então no céu da Tunísia. ‘Uma serpente de mil cabeças saiu às ruas’, proclamou Zuheir Makluf, um blogueiro de Túnis.” Neste terceiro ensaio o autor é mais factual, mas não distante ou ingênuo, ele sabe bem escolher o que apresentar ao leitor. Lapouge apresenta um panorama, amarra os sentidos que já se delineavam e nos faz refletir sobre o poder da internet como arma contra o autoritarismo consagrado. Apesar de apresentar um tom diferente dos demais ensaios visitados, ele não abre mão do ensaísmo e usa seu espaço de debates para apontar tendências e mostrar que, em seu ponto de vista, algumas vezes a realidade em si basta como faísca. Este texto não se esgota em si mesmo e a isso não aspiram os ensaios.

O ensaio-ágora não é o discurso de um único debatedor. Neste espaço de discussões há um silencioso respeito pela vez do outro em expor sua opinião de forma simples e sábia até que o turno do próximo se apresente. Lapouge não pretende ser o dono da verdade, apenas o dono da palavra. E vale a pena ouví-lo.

[por Daniela Urquidi, setembro de 2011]

Citação

tenho ainda uma coisa a dizer…

Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém – mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.

– O sal da língua (1995), de Eugénio de Andrade